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Amor e casamento: causas de desunião
(Preparação para a reunião de casais das Equipas de Nossa Senhora de 27 de abril de 1961)
Penso que é da maior importância uma vigilância constante. O hábito é tanto mais perigoso que se infiltra sem quase se dar por isso.
Há pequenas coisas que se podem fazer e que são uma sacudidela na vida de todos os dias.
Quando o Nuno está no Atelier, às vezes à noite, e eu em casa – um telefonema dum de nós ao outro só para dizer que o ama. Claro que tem de ser sentido. Mas muitas vezes sentimos e não dizemos nada. Por vezes há a tentação de pensar: que ridículo, ir agora dizer-lhe isto… Para quê?, etc. No entanto, penso que todos nós, quando noivos, não nos importávamos de ser ridículos. Uma vez convidei o Nuno, por escrito – com V. Exª. e tudo – para irmos jantar fora (pois havia muito tempo que não o fazíamos e por mais lamirés que eu desse, nada). E foi um jantar cheio de novidade. Umas flores que o Nuno de vez em quando me traz, especialmente fora dos dias especiais (anos, etc.). O vestido novo que ele sempre nota e que eu procuro sempre estrear com ele. Um livro que o Nuno me oferece, especialmente aquele em que eu falei em tempos e de que ele tomou nota. (…)
Lembro aqui uma grande carta que escrevi ao Nuno, numa altura em que reconheci o perigo do hábito e da instalação a rondar-nos. Fui pô-la lá em baixo na caixa do correio. Esta foi uma grande sacudidela. (…)
Natália
Considero que o hábito representa um grande perigo e uma ameaça constante para o amor, pois pode abafá-lo. Temo-nos defendido bastante desse perigo, porque a Natália desde o princípio que tem uma aguda consciência dele, falando disso mesmo antes do nosso casamento. Por isso, temos procurado não abdicar de uma parte da nossa intimidade pessoal e de um certo recato em relação um ao outro. Ao mesmo tempo, temos procurado afastar a ideia de uma posse definitiva [de] um pelo outro, tendo insistido também muito a Natália na necessidade de nos conquistarmos sempre de novo. (…)
Nuno

O CASAMENTO
Resposta ao inquérito lançado pela revista O Tempo e o Modo, tema central do número 2, 1968
A minha resposta será sobretudo baseada numa realidade pessoal, numa experiência vivida e em convicções próprias.
Projecções possíveis para o futuro, pistas de evolução com base em comportamentos observados nos outros, serão mais da competência de sociólogos, psicólogos, moralistas, etc. Posso exprimir uma interrogação ou aventar uma hipótese, pouco mais.
CONCEITO DE CASAMENTO
No questionário, não aparece uma única vez a palavra amor. É uma palavra gasta, também. Interessa, porém, reabilitá-la, mais do que suprimi-la.
Casamento, fidelidade, sexo, são formas de concretizar, viver o amor. Só através dele têm sentido. Mas importa, então, depurar o conceito que essa palavra implica. Uma das formas de amor mais minimizadas é “o amor de si próprio”. Confunde-se vulgarmente com egoísmo. Ora se alguém por espírito de doação ou sacrifício mal entendido, acaba por se aniquilar, se reduzir a zero como pessoa, deixa de poder oferecer ao outro um ser construtivo, dialogante. Só há relações inter-pessoais quando existem duas pessoas inteiras. Essa, uma das bases fundamentais do casamento. Assim, o casamento é para mim hoje a possibilidade de uma realização pessoal primeiro, para como pessoas realizar cada um com o outro e um pelo outro, a construção de uma comunidade.
NECESSIDADE DO CASAMENTO – (hipótese baseada apenas numa intuição. Há implicações sociais, morais, psicológicas, etc.)
Uma distinção: uma união de homem e mulher pode ser ou não ser institucionalizada; conforme interessa apenas os dois ou se projecta para o futuro implicando outros.
Enquanto vivida como busca, como encontro temporário, como tentativa ou experiência, a união pode não ser institucionalizada (ou não deverá mesmo sê-lo?). Estão apenas comprometidos os dois, não está a sociedade. Trata-se de uma união que não deve implicar responsabilidade perante terceiros. A nossa sociedade não concede lugar a estas uniões e todavia julgo que elas são pedidas a um tempo pela evolução social e pela natureza. Se na adolescência o ser humano está apto para a relação sexual, as condições sociais hoje implicam uma responsabilidade a dois para com os filhos a que só a união indissolúvel pode dar resposta. Porém, essa responsabilidade a dois só é viável na idade adulta, efectuada já a inserção social do homem e da mulher e a sua afirmação como pessoas. Só então elas estão aptas a fazer uma escolha definitiva compatível com a fundação da comunidade familiar.
A institucionalização é então necessária.
Do mesmo modo, no plano religioso, não será que o sacramento matrimonial adquire então, e só então, toda a sua plenitude?
FIDELIDADE
Considero a fidelidade sexual apenas um aspecto da fidelidade global, que é para mim a construção do amor através de situações que se vão sucedendo. Estão sempre em jogo dois valores igualmente importantes: liberdade e responsabilidade. Se nalguns momentos coincidem, não se põe problemas. Mas a maior parte das vezes a noção de responsabilidade está no oposto da liberdade. Há então que optar, como pessoa que se constrói precisamente através dessas opções. Parar, reflectir e tomar o peso de ambos os valores, optando continuamente. Escolher umas vezes a liberdade (que terá sempre de ser responsável), outras a responsabilidade (que deverá sempre ser livremente aceite). Portanto, fidelidade global é uma vivência permanentemente assumida: fiel a si próprio, fiel ao outro, fiel aos outros. Fidelidade não é um conceito que se arruma duma vez para sempre. É algo de fundamental que se vive.
Quanto ao aspecto particular da fidelidade conjugal (entendida só no aspecto sexual) parece-me indispensável para a “construção duma comunidade realizada um com o outro e um pelo outro”.
Quanto aos limites nos modos como se realiza a expressão sexual dentro do casamento, como em tudo, julgo serem apenas as que advêm do recto esclarecimento da consciência de cada um: o que é amor ou o que é egoísmo.
DIVÓRCIO
Até agora a procriação era uma consequência inelutável das relações de um homem com uma mulher, o que significava a indissolubilidade do casamento. A partir de hoje, em que os meios anti-concepcionais passam a estar ao dispor de todos (e por forma a não violentar a natureza nem a destruir a vida) torna-se necessário fazer a distinção já referida, entre união experimental, temporária ou acidental e união conscientemente projectada no futuro, implicando a formação de uma comunidade que ultrapassa o casal. Por isso esta última deve requerer certas condições que permitam reduzir as probabilidades de insucesso: idade francamente adulta e preparação consciente. Nesta perspectiva, em que os filhos não são um acidente nem um facto marginal, mas uma escolha deliberada nascida no âmago da própria união e inseparável dela, a indissolubilidade do casamento não se pode deles dissociar: é a criação duma nova vida, é a responsabilidade livremente assumida para com terceiros, que justifica e exige a indissolubilidade. O filho é um laço que permanece vitalmente e que não pode ser anulado, da união de um homem com uma mulher.
No plano religioso, considerando a ordem sacramental, poderá talvez admitir-se que estando o casamento ordenado também (mas não só) fundamentalmente para a criação de novas vidas, só com elas atingiria a sua total realização. Assim, no momento do compromisso mútuo, o sacramento realizar-se-ia como que em semente, que frutificaria quando uma nova vida nascesse da união, adquirindo assim a sua plenitude e por isso a sua irreversibilidade.
EXPERIÊNCIAS PRÉ-MATRIMONIAIS
Deste conceito de casamento e das condições que ele requer, as chamadas experiências pré-nupciais assumem uma grande importância, se ordenadas normalmente para uma escolha consciente e definitiva. Elas tornar-se-iam a modalidade corrente do namoro, correspondendo a uma aprendizagem e a uma selecção, o que seria de extrema importância numa preparação para o casamento. Na evolução do namoro, desde o que era feito por correspondência e de janela, passando pelo namoro de convívio exterior que é já dos nossos dias, seria esta uma forma mais completa e por isso mais profunda.
No entanto, para se inscreverem realmente numa lista de preparação estas experiências não se limitariam a relações sexuais furtivas: deveriam ter um estatuto reconhecido pelos costumes e supor uma coabitação temporária, não para prefigurarem o casamento, o que seria impossível, mas para um maior conhecimento mútuo.
Esta evolução dos costumes, se possibilita maior liberdade de relações, também implica maior responsabilidade, inserindo-se assim numa linha de progresso social, de liberdade crescente das pessoas e no afrouxamento dos condicionalismos sociais: poderia, ainda, resolver o problema ancestral das relações sexuais dos adolescentes, podendo mesmo prever-se o desaparecimento da prostituição.
Corresponderia ainda à libertação da mulher do fardo da maternidade não desejada, agora possível com a generalização de contraceptivos que não atingem a dignidade humana.
Maria Natália Duarte Silva
O casamento: resposta ao inquérito de «O Tempo e o Modo» (1968)

Elogio do doutorando Honoris Causa Nuno Teotónio Pereira, por Nuno Portas
Universidade do Porto – Faculdade de Arquitectura, 22 de Janeiro de 2003
Incumbido de apresentar nesta ocasião os perfis de dois personagens maiores da arquitectura europeia do último meio século – que, por proposta da Faculdade de Arquitectura, a Universidade do Porto escolheu homenagear para exemplo dos mais novos – e de justificar o sentido dessa escolha, peço antecipadamente a vossa compreensão para a inabilidade com que o farei: por ter vivido demasiado perto de um e por ter estado demasiado longe de outro e também porque a admiração e o afecto que me ligam há muito a ambos me tornar difícil retratar um e outro nos breves quartos de hora protocolares desta cerimónia. Que me desculpem as falhas os nossos doutores e os nossos convidados.
Uma palavra inicial para explicar porque propusemos juntar no mesmo acto estes dois reconhecidos protagonistas ainda que sediados em países diversos, que raras vezes se terão cruzado, e que tiveram papéis profissionais e teóricos notoriamente distintos embora, a meu ver, mais paralelos do que divergentes.
E a razão mais simples reside no papel que, em ocasiões diferentes, ambos assumiram de reconhecimento da escola de arquitectos do Porto, tornando-a mais visível num caso ao país, noutro à Europa.
Primeiro no tempo, Teotónio Pereira foi um “regionalista critico” (avant la lettre…) que, desde a saída da escola de Lisboa, teve a percepção das afinidades com as preocupações dos seus companheiros de geração da escola do Porto e por isso estabeleceria em diversas ocasiões as primeiras pontes entre Norte e Sul, já então em torno do dualismo da modernidade e da tradição – do global e do local, ou do glocal, como hoje diríamos.
Depois Vittorio Gregotti que se iniciaria como crítico e publicista numa das mais influentes revistas de tendência da altura, defendendo a pluralidade do “moderno”, quer das suas origens quer das suas geografias, e que uma década mais tarde, através de o novo ponto focal de Barcelona, descobriria o grupo da escola do Porto e o grupo “sem escola” de Lisboa.
Ambos não abandonariam as pontes então lançadas e ambos estão aqui como prova do nosso reconhecimento ou seja, da nossa memória.
Nuno Teotónio Pereira, nascido nos primeiros anos da década de vinte – tal como Távora ou Taínha, entre outros arquitectos a diferentes títulos notáveis (de tal forma que poderíamos falar de um verdadeiro “vintage”!) – inicia a vida pública de jovem arquitecto aparecendo no histórico Congresso Nacional dos Arquitectos de 48 a tratar da questão da habitação após ter co-traduzido para o português, a Carta de Atenas de Le-Corbusier e enquanto projectava uma notável igreja no interior do País que constituiria (se não erro), o primeiro sinal do confronto assumido positivamente entre “modernidade” e “tradição”.
Não pretendo, nem poderia fazê-lo, percorrer o rosário das suas numerosas obras significativas , mas simplesmente lembrar o que para muitos de nós, mais novos, foi um exemplo de contínuo compromisso com o país real – e de luta, até ao sacrifício pessoal, para mudar o contexto social e político, das arquitecturas e de muito mais que a Arquitectura. E, em paralelo, de compromisso com a própria arquitectura, confrontando as pessoas e os sítios através de um método aberto que tornou possível o projecto de grupo envolvendo nas suas obras diferentes gerações e disciplinas. Para os que com ele colaboraram, essa prática foi a “escola” que os de Lisboa não tínhamos tido – sem que essa arquitectura de investigação colectiva paciente e crítica tivesse por isso que ser menos arquitectura com autor.
A investigação sobre a casa e o bairro – o tema mais constante do anos 50 aos 90 – pode ser lida em dezena e meia de conjuntos habitacionais de promoção pública em varias cidades e regiões – primeiro nas Caixas de Previdência, depois nos Olivais Norte e Sul e no Restelo, em Lisboa e finalmente no programa PER em Oeiras, formando uma riquíssima e consciente experimentação sobre a tipologia, a construção e os traçados urbanos.
A que há que juntar ainda no início dos anos 50, o emblemático edifício colectivo das Águas Livres inovador a vários níveis, do programa à organização e à linguagem (cor) não por acaso permitido por um claro plano de pormenor de Manuel Taínha que, infelizmente, não pode apadrinhar este acto.
Se me é permitido um testemunho pessoal diria que sem esse trabalho laboratorial que Teotónio Pereira nos propiciou, não teria sido provável, por exemplo, a abertura no LNEC de um sector de investigação interdisciplinar a partir de 63, devido à iniciativa de RJG [Ruy José Gomes] e para onde levei metade do n/atelier… nem a experiência do programa SAAL dos anos da Revolução, que ambos tínhamos imaginado possível, nem talvez a criação dos GAT que tinham tido um precedente na desconcentração de técnicos com autonomia para as várias regiões posta em prática quando Teotónio Pereira era consultor da Federação das Caixas de Previdência em pleno Estado Novo e por onde passaram nomes depois notáveis que me abstenho de enumerar.
Em paralelo com a habitação, Teotónio Pereira tinha , como lembrei, construído a primeira igreja “reformadora” – do conceito litúrgico até à linguagem arquitectónica – e a partir dos anos 50 polariza uma rede de jovens arquitectos e eclesiásticos que se propõe conjugar esforços na linha e João XXIII e, entre outros, do então Bispo do Porto, e lançar o Movimento de Renovação da Arte Religiosa que influenciou, através de exposições e debates, as mentalidades dominantes e daria à arquitectura moderna portuguesa (neste caso dos edifícios ou de assembleia colectivos) numerosas oportunidades de projectos interessantes que a encomenda oficial então negava. Para esse acervo ele próprio contribuiria ao longo da década de 60 com as conhecidas igrejas de Almada e, sobretudo, pela sua complexidade, a do centro da capital.
Também neste campo a procura de uma linguagem arquitectónica que se queria mais realista (ou menos abstracta em relação ao contexto geográfico, histórico, sócio-cultural) – e o adjectivo realista, se não erro, é do seu companheiro de geração talvez mais próximo, Manuel Tainha – não pode separar-se da atitude de intervenção que Teotónio Pereira manteve incansavelmente – antes mas também depois do 25 de Abril – quer no ambiente da profissão e da cultura, quer no dos direitos cívicos e pela paz, de Angola e de Timor.
E ainda posso testemunhar como o período de mais intensa produção de um atelier que sempre foi pequeno e coeso, coincidiu com o tempo dos maiores riscos do seu líder na luta pelas liberdades e contra a guerra colonial que o empenhou pessoalmente até à cadeia, de que o 25 de Abril o libertaria e na qual chegaria a desenhar peças importantes, como o sacrário, para Igreja em construção.
Conquistada a democracia, Teotónio Pereira não deixa de, a par de uma actividade de projectista agora menos intensa, se desdobrar ao serviço da organização da profissão (lançando um processo que levaria à Ordem dos Arquitectos) e a publicar artigos de opinião com maior frequência sobre as políticas urbanas e regionais e, até a realizar trabalho de investigação à habitação popular desde a 1ª industrialização em Lisboa.
Sinto que não terei dado o retrato que Teotónio Pereira merecia na hora deste acto académico que é de admiração e de justiça a alguém que, nunca tendo sido académico (porque não procurou sê-lo e não o deixaram sê-lo) foi um mestre de gerações (dos que trabalhassem ou não com ele) que aprenderam como a racionalidade dialogante que ele praticava podia ser a condição do compromisso realista que sempre defendeu – o da linguagem arquitectónica com a sociedade que a pede e dela se apropria. E ainda pelo que fez por um país mais livre e solidário e uma profissão como a nossa mais responsável.

Cerimónia de homenagem ao Arqtº. Nuno Teotónio Pereira
promovida pelo Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU)
Lisboa, Teatro Thalia, 20 de dezembro de 2016
Senhor Secretário de Estado,
Senhor Presidente do IHRU,
caros amigos e amigas
Agradecemos a concretização desta homenagem e também a oportunidade de dizer algumas breves palavras.
Esta iniciativa faz-nos muito sentido. Fundamentalmente por duas razões: porque foi esta a instituição que o Pai escolheu para doar o seu património ligado à intervenção em arquitetura e urbanismo, o qual foi acolhido, preservado e disponibilizado com o maior profissionalismo, que aproveitamos a ocasião para agradecer; e porque uma boa parte da sua vida foi dedicada ao objeto do Prémio do IHRU: a habitação e a reabilitação.
Não vou recordar o percurso profissional do Pai, mas apenas lembrar que além de arquiteto de inúmeras obras, nomeadamente de habitações, em várias épocas e em vários pontos do país, baseadas em diferentes programas (unifamiliar, plurifamiliar, para pessoas com mais e menos meios, com predomínio da habitação social), ele foi também um investigador da habitação. Desde logo no âmbito do Inquérito à Arquitetura Popular em Portugal (1955) e mais tarde em Lisboa quando, com Irene Buarque, realizou um trabalho sobre a evolução dos prédios e vilas de Lisboa, em particular dos séculos XIX e XX (1995) e, ainda, quando coordenou uma equipa que deu origem à publicação “Montijo, um património a preservar: arquitetura doméstica de expressão protomoderna” (2008). Foi ainda, e sobretudo, um lutador pelo direito à “habitação para o maior número” – uma frase sua, que vem do I Congresso Nacional dos Arquitetos, em 1948 e que é igualmente o título de uma obra publicada pelo IHRU e pela Câmara Municipal de Lisboa, sob coordenação científica de Nuno Portas (2013).
Nos últimos anos manteve-se preocupado com a questão da habitação. Falamos muitas vezes das demolições, diria “selvagens”, de bairros no concelho da Amadora, dos despejos de inúmeras famílias provocados pela crise. Ainda hoje um jornal indicava que desde março de 2014 houve uma média de 5 famílias, por dia, despejadas das suas habitações. É um problema que não desapareceu, que se aprofundou com as políticas de austeridade – que o tornou deliberadamente invisível – que deixa profundas sequelas, e que temos de enfrentar, com lucidez e determinação.
Foi dos primeiros a insistir na necessidade de uma aposta séria na reabilitação. Em 1998 escreveu sobre a reabilitação nos bairros históricos de Lisboa e daí em diante foram muitos os artigos e intervenções sobre o tema. Hoje, a reabilitação está, felizmente, na ordem do dia. Mas exige uma mudança de mentalidades, de hábitos, de políticas. Lembro-me de uma inspirada conversa que tivemos, imprevista, há talvez 3 ou 4 anos, que tive pena de não ter gravado, sobre a formação dos arquitetos a esta luz, do que seria necessário alterar. Esta prioridade está em linha com a criação de sociedades mais justas e mais sustentáveis, mais equitativas. Com economias contra o desperdício, com um consumo responsável, em que produzimos menos, compramos menos e recuperamos mais.
Hoje celebramos particularmente as facetas de Nuno Teotónio Pereira ligadas à habitação e à reabilitação. Outras, inseparáveis, porque habitando e coexistindo na mesma pessoa, ficam na sombra: o urbanista, o articulista, o fotógrafo, o geógrafo amador, o militante católico de uma certa época, o ativista social e político de sempre… Traços comuns foram as fortes convicções e a determinação de as traduzir em práticas concretas. É disso que continuamos a precisar.
Luísa Teotónio Pereira
Arquivo RTP sobre Nuno Teotónio Pereira




